Como dimensionar um inversor de frequência corretamente
Dimensionar pela potência do motor é o atalho que queima inversor. O número que importa é a corrente — e o tipo de carga.
"O motor é de 15 cv, então o inversor é de 15 cv." É assim que a maior parte dos inversores é comprada no Brasil, e é assim que boa parte deles queima antes da hora.
Dimensione por corrente, não por potência
A potência nominal impressa no inversor é uma referência comercial, calculada para um motor de 4 polos, tensão padrão e carga normal. Basta o motor ter 6 polos, ou a tensão da planta ser diferente da nominal, e a corrente real sobe sem que a potência mude.
O número que decide é a corrente nominal do motor na placa, comparada com a corrente nominal de saída do inversor. Essa corrente do inversor tem que ser igual ou maior. Não a potência.
Carga normal ou carga pesada
Fabricantes publicam duas linhas de corrente para o mesmo modelo:
- Carga normal (variable torque): sobrecarga de 110% por 60 s. Bomba centrífuga, ventilador, exaustor. O conjugado cai com o quadrado da rotação, então a partida é leve.
- Carga pesada (constant torque): sobrecarga de 150% por 60 s. Esteira, extrusora, misturador, elevador, britador, compressor. Precisa de conjugado cheio desde a partida.
Especificar um inversor de carga normal para acionar uma esteira carregada é o erro mais caro dessa lista. Ele funciona no comissionamento com a esteira vazia e desarma por sobrecorrente na primeira partida com carga cheia — normalmente no primeiro turno de produção real.
Os fatores que quase ninguém aplica
Altitude. Acima de 1000 m, o ar rarefeito reduz a capacidade de dissipação. Perde-se cerca de 1% de corrente a cada 100 m adicionais.
Temperatura ambiente do painel. A corrente nominal vale tipicamente até 40 °C. Painel fechado, ao sol, em galpão sem ventilação, chega fácil a 55 °C — e aí o inversor precisa ser derratado ou o painel precisa ser ventilado. Não existe terceira opção.
Frequência de chaveamento. Subir o chaveamento para reduzir ruído acústico aumenta a perda nos IGBTs. A 8 kHz ou mais, muitos modelos perdem 10% a 20% da corrente nominal.
Comprimento do cabo motor. Cabo longo gera capacitância parasita e picos de tensão nos terminais do motor. Acima de 50 a 100 m, entra reator de saída ou filtro dV/dt — sem isso, quem morre é o isolamento do motor, e leva meses até alguém ligar uma coisa à outra.
O roteiro que funciona
- Anote a corrente nominal do motor na placa, não a potência
- Classifique a carga: normal ou pesada
- Verifique a corrente de partida exigida e por quanto tempo
- Aplique o fator de altitude, se acima de 1000 m
- Meça a temperatura real dentro do painel, no pior dia do ano
- Confira o comprimento do cabo até o motor
- Escolha o inversor cuja corrente, já derratada, ainda supera a exigida
Quando sobredimensionar não resolve
Colocar um inversor duas vezes maior parece seguro, mas degrada o controle vetorial: a estimativa de corrente do motor fica imprecisa na faixa baixa da escala e o conjugado em baixa rotação piora. Sobredimensionar um degrau é prudência. Dois degraus é outro problema.
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Carlos Alexandre Cotta Coelho
Engenheiro de automação industrial · CREA ativo · 15 anos de campo
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